Os 10 anos de Fernando Alonso na F1, completados dia 4 de março, não passaram despercebidos por aqui, nem, é claro, em seu país natal. Diferentes foram as abordagens, cada um exagerando para um lado, em muitos exemplos de como não fazer jornalismo. Perseguido para uns, mau caráter para outros, não é de se estranhar que a verdade fique em segundo plano quando o objeto de discussão é um piloto que nunca fez muita questão de agradar.
Os espanhóis destacam que Alonso terminou sua primeira corrida, o GP da Austrália de 2001, de Minardi, a 2 voltas de um certo Michael Schumacher. Nunca havia feito uma curva sequer com o carro, cujo motor tinha 3 anos de defasagem. Sua volta mais rápida foi mais de 3s pior que do alemão que, em 5 anos, se converteria em seu rival pelo título. “Bernie Ecclestone o comparava com Ayrton Senna e a imprensa de todo o mundo dizia que se tratava de um novo campeão”, cita o jornal El Comercio, das Asturias. Ao fim daquela corrida, prossegue a publicação, Alonso “anunciou a essência de sua filosofia: ‘me ultrapassam carros, não pilotos’”.
O Diario AS destacou que a audiência da estreia do asturiano não chegou a 200.000 pessoas, nada comparado ao estouro que o esporte teria na Espanha nos anos seguintes, e definiu Alonso como “polêmico de longe, extrovertido de perto”.
Os jornais também destacam os números do bicampeão, que já é o 6º na história em número de vitórias e 5º em pódios. Neles, no entanto, assim como na matéria veiculada pelo canal de TV Antena 3, os pontos polêmicos da carreira de Alonso não são citados.

"Dos títulos con Renault, un infierno en McLaren y un futuro en Ferrari", é a definição do canal Antena3
O mesmo não acontece na TV La Sexta, que detém os direitos de transmissão da F1 na Espanha. No especial comemorativo da data, há uma página dedicada às sanções tomadas pelo piloto, numa lista que não deixou de fora sequer a penalização por atrapalhar Robert Doornbos na GP da Hungria de 2006. Surpreendentemente, tudo escrito sem tomar partido, ainda que o início do texto saliente que “o asturiano teve que se esforçar ao máximo para se tornar uma lenda do automobilismo, mas também sofreu inúmeros tropeços que impediram que aumentasse seu currículo”. O problema é terem ignorado o papel do espanhol no caso da espionagem em 2007.
O episódio também é ignorado pelo El Mundo, ainda que o “Alonsismo em 10 atos”, mais autoral, dê uma ideia muito boa da jornada do menino de Oviedo. É interessante como os espanhóis sofrem do mesmo complexo de vira-lata brasileiro, no melhor estilo “apenas um brasileirinho contra o mundo”. O texto salienta que Alonso, como Pau Gasol, Rafa Nadal e a seleção de futebol, levou a Espanha a feitos que antes só eram “dos outros”.
Há alguns dados interessantes, como o fato de Briatore ter conseguido que os direitos de transmissão fossem repassados de graça para a Espanha em 2003 – lembrando que não havia cobertura contínua até então – e como começou a briga entre Alonso e Ron Dennis, por uma caixa de câmbio quebrada no GP da França.
O único especial com material exclusivo, contudo, foi publicado em doses homeopáticas pelo Marca. A longa entrevista, disponibilizada no original pelo blog do Octeto, tem 5 partes, e gerou várias das manchetes nos sites brasileiros nos últimos dias (parte 1, 2, 3, 4 e 5). Os italianos (aqui e aqui) também usaram essas entrevistas, destacando a diferenciação que o piloto fez entre a McLaren e a Ferrari e as ligações com a Itália, que permeiam sua carreira na F1, passando pela Minardi e Briatore.
Aliás, se a ideia é mesmo saber o que os pilotos disseram e em que contexto o fizeram, o remédio é sempre procurar os originais.

Por mais que a imprensa daqui tente colocar brasileiros na história, a única pedra no sapato de Alonso não responde nem por Massa, nem por Piquet
Isso nos leva ao texto do portal UOL, cujo título já evoca “coleção de conquistas e desafetos”. Entre suas “frases polêmicas”, há uma “dedico o título para mim e mais ninguém”, que teria sido proferida depois do primeiro triunfo. De fato, uma declaração de Alonso na época deu o que falar, mas foi outra (retirada devidamente da transcrição da coletiva da FIA, de 25 de setembro de 2005): “acho que o título é o máximo que posso alcançar em minha vida, em minha carreira, e é graças a 3 ou 4 pessoas, não mais que isso”, referindo-se a seus pais, sua irmã e sua avó.
As conquistas são tratadas com desdém, fruto de “mudanças de regras como a ausência de trocas de pneus”, que prejudicaram a Ferrari. Com o que o site chama de desafetos, o espanhol daria uma de “João sem braço”. O engraçado é que o texto prossegue sem imputar culpa alguma a Alonso nos episódios citados, ao menos em relação aos brasileiros. E, novamente, ao falar do GP da Hungria de 2007, falta contexto e a questão das provas é omitida.
Curiosamente, na retrospectiva do portal Terra, quem leva a pior é Felipe Massa. De maneira errônea, o site aponta que Alonso já se colocava entre as Ferrari em 2004, citando Massa como um dos pilotos. Não seria Barrichello? Enfim, outra publicação, que, a exemplo da maioria das espanholas, decidiu tangenciar as polêmicas.
Apesar da imprensa brasileira tentar criar inimigos para Alonso entre os brasileiros, o rival de verdade do espanhol é Lewis Hamilton. Na terra do inglês, encontrei apenas uma matéria, no site especializado YallaF1. Ali, nada de juízos de valor. E se você quiser saber o que aconteceu naquele final de semana do GP da Hungria, que acabou com qualquer possibilidade do casamento Alonso e McLaren dar certo, terá que se esquivar de fontes brasileiras e espanholas. Embora Max Mosley provavelmente contaria uma história um pouco diferente, o texto é o que melhor apresenta os fatos.
Gostar disso:
Seja o primeiro a gostar disso post.
Passaram por aqui